Garimpôncio

Minha mãe era preta. Meu pai também. Quando eu nasci, branco desse jeito, me esconderam dentro do armário.

- Cadê o menino? Estou ouvindo o choro...
- Eu não tô ouvindo nada não.
- Tá vindo daquele armário!
- Bobagem, Almeida, onde já se viu um menino dentro do armário?
- É dali mesmo, vamos ver... QUE BRANQUELA É ESSE AQUI?

Fui parido no casarão, a bá que fez o parto, de maneira que não havia possibilidade de troca. E foi assim que eu tomei a primeira série de porrada. Fiquei roxo, e com a nova coloração conseguiram acalmar meu pai. Acabei sendo registrado somente dois anos depois disso. De castigo, puseram meu nome de Garimpôncio Astrógedo! Meu padrinho dizia que isso era nome de jogador de futebol.

Minha irmãzinha, branca também, recebeu a graça de Anarégida Lolôncia. Para facilitar a carreira de modelo, logicamente.

Esse entregador de pizza, muito gentil, já velhinho, coitado!, continua nos fazendo cortesia. Sei não, mas acho que foi por isso que eu fiquei com esse apelido de "farinha de trigo"...

Casei com uma branca, daquelas quase transparentes. Meu filho nasceu preto! Eu escondi o menino dentro do armário, assim instintivamente. Engraçado, eu tive imediatamente uma impressão de que alguém o havia seguro no colo, dentro do armário. Estranho! Abri novamente a porta e lá estava o entregador de pizza, só que esse era preto. Isso é que é coincidência!

Será que alguém mais ainda pede pra entregar pizza em casa?

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

Página Principal de Pristópolis - abre novo browser