A muda e o bonde

Prista, João Prista. Bonde, andei de bonde, mas isso já foi há muito tempo! Uma vez o condutor pisou no meu pé. Eu chutei o saco dele, que caiu do bonde. O motorneiro interrompeu a viagem, pra tentar chutar o meu saco. Conseguiu. Mas isso já foi há muito tempo! Eu ficava o dia todo no ponto do bonde, esperando as moças subirem. Haviam moças naquela época. Com um pouco de sorte, dava pra ver as panturrilhas. Naquele tempo eram panturrilhas, Hoje são apenas batatas das pernas. Perdeu o romantismo! As que desciam, mostravam as canelas, mas isso já foi há muito tempo.

A gente moía vidro de lâmpadas nos trilhos dos bondes, pra fazer cerol. Know How de quem já soltou pipa. A minha pipa subia e subia, todos os dias. Uma vez um gatinho, ainda filhote, atrapalhou os nossos preparativos, porque a gente não queria cerol vermelho. Ninguém ficou muito preocupado, porque gato tem sete vidas e estaria mesmo em algum outro lugar usufruindo da próxima. Mas isso já foi há muito tempo...

Certo dia arranjei uma namorada no bonde. Ficamos lá num cantinho do fundo e fomos parar na Muda, que era uma espécie de estacionamento de bondes. Foi tão emocionante! Eu alisava o cotovelo da moça, pensando que era um seio. Haviam moças naquela época, mas isso já foi há muito tempo...

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