Ilustração de Wellington Lyra

Mamanha

Adoro um churrasco! Queria morar numa cobertura, com piscina, sauna e churrasqueira, mas não tive tanta sorte (minha mãe bem que me disse: “estuda, meu filho!”) e moro nesse apertamento, de frente pros fundos, no morro. A varanda é muito pequena, onde não caberia eu e mais uma churrasqueira, ao mesmo tempo, por menor que fosse esse objeto de assar carnes. Eu também queria ter mordomo (chique mordomo, né?), empregados que fizessem minhas compras, mas não tive tanta sorte (minha mãe, sabe?, bem que me disse: “estuda, idiota!”) e nada de escudeiros ou mordomias. Estava eu, portanto, forçosamente passeando no supermercado, quando ouvi que ela me chamava. Como isso poderia ser? Pensei que fosse alguma alucinação! Mas ela, carinhosamente, com aquela voz tão feminina, acenava pra mim:

- Pssssit! 
- Quem, eu? 
- É, você mesmo, estou doida pra ir com você!

Meu coração bobo começou a saltar entusiasmado! Ela, pequenininha, rogando por mim... Ideal pra se levar pra casa, ainda mais no meu caso, morando num lugar tão assim apertadinho... Com tudo isso, pois, fui forçado a levá-la pro meu modesto lar. Claro, estava doido por experimentá-la! Mas é preciso muito carinho com o ritual. Peguei a maminha firme, com a mão direita. Meio sem jeito, meti a mão esquerda no... no... no sal. Na embalagem, sobre o grelo, digo, sobre a grelha, estava escrito: “não faz fumaça”. Enfiei na tomada e a resistência começou a ficar incandescente. Imediatamente o disjuntor de 15 desarmou toda a luz da casa. Então ficamos juntos no escurinho, com a maminha salgada.

Dia seguinte, o eletricista acertou tudo, fio grosso (opa!, no bom sentido...), disjuntor de 30. Aprendi mais essa. Tudo pronto para testar minha linda churrasqueira elétrica. Dessa vez foi a picanha. Virei a gordura (dela, a picanha) para baixo e fui falar no telefone. Quem foi que disse pra esse gordo burro que resistência não faz fogo? A labareda queimou três panos de prato que estavam pendurados, chamuscou o teto, os ladrilhos e por pouco não tacou fogo na cozinha toda. Um fumacê do cassete! Em situações semelhantes, é bom avisar aos estúpidos de plantão que não se deve jogar água, a primeira providência deve ser a de se retirar o pino (aquele que fica na ponta do fio) da tomada (aquela que tem buraquinhos e fica geralmente na parede) para depois, então, cuidar de apagar o fogo.

Eu sempre quis ter uma churrasqueira, daquelas que os espetos ficam rodando, mas não tive tanta sorte (minha mãe, sutil, bem que me disse: “estuda, imbecil!”) e fui seduzido por uma churrasqueira elétrica de supermercado...

*   *   *

ps.: Convém esclarecer, aos que não perceberam, que “Mamanha” é uma mistura cretina de maminha com picanha. Não, eu não sei o método de preparo na labareda.

João Prista

Ilustração de "Culinária Maluca" por Wellington Lyra

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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